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A evolução da consciência dos mortos nos filmes de Romero

Se tem uma coisa que dá medo é um zumbi que consegue entender o mundo ao seu redor. O que é compreensível, uma vez que a raça humana sempre consegue ser dizimada rapidinho em tudo quanto é história de zumbi, mesmo quando os mortos-vivos não são particularmente rápidos ou espertos.

Como vencer rápido só tem graça no Plague Inc. (e só quando você já vem apanhando do jogo há um bom tempo), zumbis tão capacitados que podem até entender o que são aparecem raramente – em geral sozinhos, o que já causa um grande estrago. Mas, por hoje, eu vou fechar a coisa nos 6 filmes originais de George A. Romero.

Considerando os quatro primeiros filmes da saga, temos uma evolução no comportamento dos zumbis, que culmina em uma mobilização organizada dos mesmos, focados em fazer algo que vai além de apenas mastigar todo e qualquer humano vivo pelo caminho. Porém, nos dois últimos filmes a coisa perde a continuidade e parece retornar ao começo de tudo.

Em Night of the Living Dead, temos zumbis que sabem pegar pedras e arrebentar vidros, o que já seria bastante inconveniente. Mas não para aí.

Em Dawn of the Dead (o original, não o remake), vemos mortos-vivos capazes de reproduzir ações que lhes eram comuns em vida, o que incluiria lembrar de como voltar ao esconderijo onde estão os outros sobreviventes e passar por todos os obstáculos, na medida do possível (porque eles eram meio travadões, aqueles zumbis).

A memória está presente em algum grau, mas desvinculada de entendimento ou de sentimento. Eles vagam e até manuseiam coisas, como costumavam fazer, mas isso não tem significado algum, era só algo que eles precisavam fazer em vida e continuaram a fazer depois de (des)mortos, como um eco. Diferentemente de quando Bub bate continência para um dos personagens de Day of the Dead, porque ali ele aparentemente entende o motivo de estar fazendo aquilo – e há ressentimento naquele jeito, é quase uma zombaria (estou falando da cena final de Bub. Sim, aquela cena).

Dr. Logan foi bem-sucedido em estimular alguma coisa em Bub para além da necessidade incontrolável de atacá-lo. Eu tenho a impressão de que ele fez o que seria sugerido por uma personagem em Survival of the Dead: condicionar os zumbis a comportamentos que os tornariam inofensivos aos humanos (a ideia dela era condicioná-los a comer outros bichos. A cobaia, para a surpresa de todos (só que não), foi um cavalo. Sinceramente, BoJack Horseman seria um personagem que jamais sobreviveria num cenário desses).

Zumbis podem pegar ursinhos do chão e mexer em maçanetas o quanto quiserem, mas um morto-vivo não tem apego a coisa alguma até que se prove o contrário. E acho que ficou bem claro que Bub era conscientemente vingativo e que estava bastante puto da vida (ou quase isso).

Aparentemente, Dr. Logan condicionou Bub a gostar dele (o que torna o apelido “Dr. Frankenstein” imbecil), fosse esse um dos objetivos ou não, ao mesmo tempo em que reativou algumas memórias corporais do zumbi – porque não podemos saber se ele realmente lembrou de algo, mas vemos que ele se lembra de como manusear uma série de coisas. Terminamos o filme com a certeza de que um zumbi consciente incomoda muita gente, mas um zumbi consciente que sabe atirar incomoda muito mais. Também terminamos o filme com a dúvida inquietante: Se o Dr. Logan tivesse ido até o fim, ele poderia reverter a natureza destruidora dos zumbis ou o que aconteceu foi apenas antecipado pela situação toda?

Finalmente, em Land of the Dead, temos zumbis que sabem o que são e têm plena consciência de que seus iguais estão sendo exterminados. Conheço grupos que não conseguem trabalhar juntos tão bem quanto aqueles zumbis! Ainda bem que eles eram uma coisa meio Lawful Evil ou Chaotic Good, porque acho que ninguém teria sobrevivido se não fosse isso.

Eu tenho a impressão de que, se havia algo que indica uma continuidade nos filmes, são os zumbis. Eles começaram usando pedras para quebrar janelas, depois ecoaram comportamentos e se lembraram de caminhos, para então começarem a ter memórias com sentido e criar alguma empatia (Vem me dizer que o Bub não gostava do Dr. Logan. Nem que fosse só porque ele dava entranhas pra ele, vai!) e, por fim, vemos zumbis com senso de unidade e capacidade avançada de organizar-se – isso sem indício algum de que eles foram condicionados ou induzidos a desenvolver tal comportamento.

Acho que os zumbis do Romero nunca foram tão longe quanto Big Daddy. E isso foi o máximo que eles alcançaram dentro da série de filmes.

Essa evolução, para mim, é a teoria perfeita de como os filmes se relacionam, mesmo que nós nunca tenhamos visto um personagem de um filme em outro. Exceto pelos dois últimos filmes – que vão, aliás, confirmar minha teoria.

Em Diary of the Dead (que é meu favorito dentre todos os filmes), temos uma inversão de foco. Os zumbis, principalmente nos filmes 3 e 4, eram muito importantes para a narrativa, tanto que temos zumbis que se destacam e podem ser identificados individualmente (Bub e Big Daddy, por exemplo); porém, neste filme, eles se tornam irrelevantes em relação aos sobreviventes. O que eles são ou não, o que fazem ou não fazem (para além de mastigar os vivos), não importa muito.

Não há nada particularmente especial nos zumbis, é quase como se Romero tivesse dado um restart neles, o que os torna muito mais parecidos com os mortos-vivos de Night of the Living Dead. Apesar de sermos provocados pela narradora a pensar se os zumbis teriam ou não consciência – o que nos tornaria os monstros da história – isso acaba sendo apenas uma sugestão humana, baseada somente na crueldade humana que esses humanos experimentaram, e não propriamente em qualquer evidência concreta.

Por outro lado, Diary of the Dead está claramente ligado ao filme que o sucede, Survival of the Dead (este aqui é, por acaso, o filme que eu mais desprezo dentro todos os seis). Pela primeira vez, sobreviventes são o fio que liga dois filmes.

Survival traz zumbis muito parecidos com os de Dawn of the Dead, ecoando comportamentos que lhes foram comuns em vida, e temos um momento que eu compararia com toda a trajetória de Bub, onde vemos os humanos apostando em condicionar os zumbis a comer outras coisas – o que, a princípio, me soa como a pior ideia possível, porque isso parece o caminho mais fácil para ter a Terra habitada por criaturas que comem humanos E outros animais.

Ou seja, os zumbis de Survival ficam “brincando” de ficar vivo, imitando comportamentos de quando vivos, e não servem para porcaria nenhuma! Toda a evolução dos outros quatro filmes estava, de uma vez por todas, morta e enterrada – junto da carreira de George Romero como diretor, se vocês me permitem dizer.

Se tudo isso era uma preparação para voltarmos a zumbis como Bub e Big Daddy, apenas para nos guiar a um desfecho que unisse tudo o que já havíamos visto, seria assunto para outra hora. Mas a questão é que, mesmo com o tanto de gente morta em Day of the Dead e em Land of the Dead, Romero nunca mostrou os zumbis “conscientes” como algo definitivamente ruim. Na verdade, as coisas deram mais certo com eles que sem eles – digo, se pensarmos no lado dos protagonistas, a coisa foi muito melhor, o que pode muito bem significar que, na verdade, só tivemos um recorte otimista de pessoas que estavam “do lado certo”.

O que nos deixa para pensar o que teria sido se Romero tivesse explorado o pior lado dos zumbis conscientes, se ele decidisse apostar no cenário mais desgraçado e desesperado possível, onde nem seus próprios protagonistas teriam chances. Ou o próximo passo de Romero teria sido uma retomada da humanidade, algum tipo de exumação?