<script async src="//pagead2.googlesyndication.com/pagead/js/adsbygoogle.js"></script> <!-- uz_336 --> <ins class="adsbygoogle" style="display:inline-block;width:336px;height:280px" data-ad-client="ca-pub-2659980373728363" data-ad-slot="7334352839"></ins> <script> (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); </script>

CONTO ZUMBI: "Cinco Balas"

projectzomboid1

Cinco. Era tudo o que restava em minha vida miserável. A dor entorpecia cada vez mais meus pensamentos. Estancar o sangue que verte do ferimento parece impossível. Acho que uma veia se rompeu. Não consigo pensar em mais nada para explicar o riacho que escorria pelo meu ombro, empapando minha roupa, meu corpo e tirando aos poucos minha vida. Com a mão apoiada debilmente na parede, me arrestei até o que eu acreditava ser um lugar aconchegante para que eu pudesse fazer o que era necessário fazer. Os gemidos me acompanhavam de perto. Eles ainda me seguiam pelos corredores do prédio e eu só tinha mais cinco malditas balas. Maravilha.

Uma lufada de fedor me atinge como se fosse um soco no estômago. Não consigo conter a náusea e ponho o que restava de minhas reservas de comida para fora. Recuo um passo, mas o cheiro horrível de decomposição, fezes, urina, mofo e sabe-se lá o que mais me acompanha como um fantasma. Invisível mas presente. - Deus do céu... – resmungo. O cheiro já me impregna completamente, por um momento eu até esqueço o ferimento e faço um movimento para tapar o nariz com a mão desocupada. Claro que me arrependo no instante seguinte. A dor veio acompanhada de um grunhido que se assemelhava muito ao gemido deles.

É até melhor assim, ao menos afastado da porta posso notar a aproximação do maldito que se esgueira pelas sombras do quarto abandonado. Fico na dúvida se o gemido de agora a pouco veio de mim ou veio dele. Acho que a dor estava me pregando peças. Pude vê-lo perfeitamente quando se aproximou da luz do sol. Era um homem, na faixa dos vinte e dois, vinte e três anos. Usa uma blusa regada já surrada pelo tempo, não sei qual a cor do tecido pelo enorme volume de sangue seco e coagulado que mancha tudo do pescoço para baixo. Esta descalço e usa apenas uma cueca abaixo da cintura. Os olhos leitosos a todo o momento mirando meu corpo. Sempre fico surpreso ao ver um deles, tem um buraco do tamanho de uma moeda de um real no pescoço e mesmo assim anda em minha direção.

Quatro. Ele cai no chão sem cerimonia. Mortinho da silva. Pela segunda vez. Por curiosidade, a cor da camisa dele um dia foi azul. Examino rapidamente o quarto, agora usando a mão boa para tapar o nariz. A pilha de minha lanterna tinha dado seu último suspiro na noite passada. Uma pena. Precisava dela agora. Sem energia, o aposento é tão escuro quanto piche. Aquele não era um lugar apropriado. Por ter chego até aqui, acho que mereço um pouco mais de dignidade.

Três. Ele se aproximou pela porta do que parecia ser o banheiro. Que filho da puta. Meu coração ameaçou sair pela boca quando ouvi seus gemidos, mas era tarde para uma reação. Ele agarra meu braço ruim, a dentada seca na altura do bíceps. Não, eu não perderia mais um pedaço de mim. O tiro a queima roupa abre um enorme buraco em sua cabeça. Sua massa encefálica foi enfeitar o vaso atrás dele. Muito do que era dele se espalha pelo meu corpo, mas de que importa? Duas mordidas no mesmo dia, mereço o prêmio de idiota do ano.

Meu braço, já impotente, agora nem se move mais, esta ali como um fardo, um trapo sem uso. Teria arrancado fora se tivesse algo para fazê-lo. Já estava fodido mesmo, que falta me faria um braço? Decido que aquele não era o local e deixo o aposento para outro explorar. Já fiz um grande favor ao me livrar de dois, se houvesse mais lá dentro, teriam de se virar. Continuo andando aos trôpegos e encontro um ambiente que poderá servir aos meus propósitos. Confirmo minha teoria ao abrir a porta da frente. Três vezes mais espaçoso do que o último que entrei, esse tem até vista para a rua, metros abaixo. As pessoas tem esse tipo de regalia quando se hospedam em uma suíte. Um Whisky e uma banheira viriam a calhar agora. Esta uma zona, como os outros, mas as janelas estão entreabertas, filtrando um pouco o ar, de forma que entro sem precisar arrancar meu nariz fora e tranco a porta atrás de mim imprensando uma cadeira contra a maçaneta. Ao menos posso ficar sozinho.

Se tem uma coisa que eu aprendi nessa merda toda é que nunca se está sozinho com essas coisas soltas por ai, parecia tipo a lei de Murphy ou ira divina ou azar meu, vai saber. A mulher cambaleou na minha direção. Uma puta mulher gostosa (se estivesse viva). Completamente nua, as veias negras visíveis por todo o corpo. Os seios são grandes e rígidos, acho que tem silicone ali. Ela se arrasta até mim com os braços estendidos, a boca semiaberta. Uma marca de mordida enfeita a perna direita. Nem imagino o que aconteceu a ela, mas imagino o que eu faria se ela ainda fosse comestível. Ao pensar nisso, concluo que não sou muito diferente dos que me caçam, eles só querem o sentido literal da coisa e eu o sentido figurativo, mas isso não importa. O que importa é que eu sou um azarado. Duas mordidas, uma morta gostosa e o local mais seguro que eu encontro em dias, cercado por uma horda de zumbis, fora que me restam apenas três balas no pente. Uma bebida poderia me convencer do contrário.

Os peitos ambulantes vem inexoráveis em minha direção. Quando finalmente consigo parar de pensar em sexo com a defunta, levanto o braço bom e miro. Não estou com tanta pressa assim, aqueles seios estão convidativos, mesmo que estejam putrefatos com as veias salientes e tão flácidos que apenas uma prótese poderia manter aquilo de pé. Dois. A mulher cai para frente. Os peitos acertando o chão primeiro. Eu não consigo conter um riso. Era rir para não chorar. Saco. Preciso mesmo de um drink. Ouço uma batida forte na porta. Depois outra e outra e outra. Eles me alcançaram. Acabou. Fim de jogo. Estou em um beco sem saída. Caralho, uma bebidinha. O braço agora lateja em espasmos estranhos. Minha cabeça gira. Acho que conseguiria fritar um ovo de tão quente que ela esta. Observo o local o melhor que eu posso. Era daquele tipo de lugar que eu jamais pisaria na vida. Cama enorme, lustre no teto, mesa de vidro, outros móveis caros, a mulher gostosa, a vista... Um bar. A sorte me dava os beijos de despedida. A vontade de beber se tornou desespero. Tropeço em objetos que nem dou importância para chegar ao meu objetivo. Quando finalmente alcanço a bancada do bar, um homem levanta-se devagar pelo outro lado do móvel. Atrás dele, duas garrafas de Whisky da melhor qualidade. Um. Não penso duas vezes ao despacha-lo desta não vida de merda. Os fluidos do infeliz pintam a bancada atrás dele com um sangue roxo escuro medonho, mas nem dou bola. Dou a volta na bancada, apanho a bebida e procuro rapidamente um copo. Em segundos o líquido desce rasgando pela minha garganta. Que delícia. Arrasto-me com a bebida na mão e a arma na calça. Deixo o copo por lá, fodam-se as boas maneiras. Tomo mais um gole no gargalo mesmo. Estava na hora. Deposito a garrafa na mesa e desabo em um sofá muito confortável. Pego a arma. Decidi que não daria trabalho para ninguém. Acabaria com o monstro dentro de mim por conta própria. Aponto para a minha têmpora e sem hesitar puxei o gatilho. Nada. Puxei novamente. Nada. Era azar mesmo o que me consumia. A arma falhara. Justo quando eu mais precisava dessa porra. Eu tinha cinco balas, não tinha dúvidas disso. Obrigado lei de Murphy, ou ira divina ou azar. Acabaram de foder de vez com minha vida! Como que em resposta a provocação, meu corpo fica pesado e a mente fica turva. A arma cai no meu colo. Meu braço bom sem força para erguê-la. Neste momento os zumbis irrompem pela porta. Ao menos, eles me comerão e nada sobrará para engrossar suas fileiras.

Porém, para a minha surpresa, eles simplesmente me ignoram... espalham-se pelo aposento me procurando... mas é como se eu fosse invisível. Ou sabem que eu já pertenço ao mundo deles. Observo a garrafa de Whisky uma última vez. Mesmo borrada, posso discernir a cor do líquido na garrafa. Ainda tem um pouco sobrando, mas não há mais força em mim para mais um gole.

Logo me tornarei um deles. Espero que o próximo que passar por aqui faça por mim o serviço que eu não pude fazer.

Autor: Luciano da Silva Vellasco Idade: 23 De:  Brasília-DF Saiba como enviar o seu conto clicando aqui