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CONTO ZUMBI: "Rua dos Mortos"

Rua dos Mortos capa Nunca imaginei que seria mais difícil atravessar uma rua justamente no dia que não tivesse alguém vivo por perto querendo fazer o mesmo. Mais ainda, não sabia que iria tanto assim precisar simplesmente atravessar uma rua e ter toda essa dificuldade. Ela e eu, nós e os mortos. Aquela menininha só fica ali dentro do estabelecimento do outro lado da calçada me olhando com aquela linda carinha de gatinho assustado querendo e sentindo falta do dono por perto. Faço sinal indicando que estou indo, mas não vou a lugar algum. Olhando de dentro do meu refugio, vulgo loja de R$ 1,99, me deparo com a situação mais grotesca da minha vida. Dezenas de carnes podres que se mexem sozinhas andando pela rua deste ao outro lado, daqui até bem pertinho da minha menininha que se esconde dentro de uma loja de doces. Linda e ironicamente sortuda, até. Nos olhamos pelas janelas bem fechadas com cuidado para nenhum morto perceber. Aquele cheiro pútrido e deplorável de alma perdida e ausente incomoda facilmente minhas narinas mesmo com todo o estabelecimento fechado. Evito pensar no quanto vomitaria se chegassem mais perto adentrando a loja. Logo irá escurecer e não poderei ver mais a minha menininha e seu rostinho de medo com resquícios de esperança de que irei ao resgate em breve. Bate-me o desespero só de pensar nisso. Preciso fazer algo logo, logo. Nunca tive contato direto com essas coisas medonhas que um dia foram gente normal, não sei o quanto podem ser perigosas em ataque. Já com a menininha eu não vivo sem seu contato e vice versa. Preciso dela. Eu a quero. Eu vou até ela. Nem que eu morra para isso. É como o elixir da vida, a cura para a depressão, a fórmula do poder e da felicidade. Puta que pariu, eu estava apaixonado, e isso em pleno apocalipse zumbi. Que situação. E que zoeira que deus me fez, hein? Se eu acreditasse nele estaria agora olhando para o céu e xingando o camarada lá em cima. Sinto-me um trapo inútil nessa situação ridícula e horrível, estou impotente a ponto de pensar em desistir por um segundo, mas só preciso olhar para ela. Pronto, olho pela janela até encontrar seu rostinho escondido triste e com medo, porém feliz, afinal, eu estou ali perto. A partir daí não consigo mais nem querer desistir e tento usar todo o meu intelecto, com sorte não muito afetado pela fome, para pensar num plano não doloroso de resolver isso tudo e chegar perto dela. - Ok, lá vou eu. – Afirmo num tom confiante, apesar das transpirações e respiração nervosa disfarçada de fundo afirmar o contrário. Tento sair pela porta dos fundos, pois parece ser a única solução. Só sei que preciso ser rápido. Já começa a acinzentar o maldito céu. Carrego uma lembrancinha leve para dar de presente para a minha linda menininha do outro lado. A porta faz um ruído ensurdecedor, o que me assusta, afinal, eu sei que o barulho atrai a atenção dessas carniças fedorentas. Do lado de fora as sombras andantes rapidamente alcançam as esquinas por perto e me vejo numa situação um pouco alarmante. Preciso correr para outro lugar seguro, penso. Enquanto corro, ZAPT, PLUM, PLOCKT, minha machadinha faz efeito nessas coisas nojentas. Minhas primeiras vítimas, e eu confesso, que até gostei. Ao limpar o caminho em que corro dá uma leve sensação de liberdade. É prazeroso. Todos deveriam experimentar. Estou me aproximando da rua principal que separa os nossos mundos e ela está infestada de podridão viva. Não posso nem pensar em passar correndo pelo meio. Será suicídio na certa. Mas que porra de vida! Eu só preciso abraça-la, no mínimo, e dizer o quanto gosto dela. Após isso eu até morro feliz. Estava quase rogando a deus, mesmo sendo ateu, para que me fizesse estar com ela novamente, nem que seja por 5 minutos. A minha lembrancinha que eu tenho em mãos é uma caixinha de música, mas que toca rock. A luz acendeu em cima de mim bem na hora que olhei para a caixa. Era perfeito, não tinha como essa merda de ideia dar errado. Liguei a caixa e, para minha surpresa e dos carnívoros a espreita, ela tocou uma música pesada num volume bem alto. Que loja de R$ 1,99 eficiente. Ao perceber os rostos podres e, portanto, nojentos, virando em direção ao som, fui dando a volta no quarteirão a fim de aparecer na rua principal de um ângulo longe desse grupo de bestas fedorentas. Não é que deu certo? Certamente, durante o caminho, a minha machadinha foi eficiente para dar conta de alguns maltrapilhos perdidos por aí, mas no fim cheguei na rua principal novamente por outro ângulo e o grupinho feliz de comedores estava longe de mim. Eu pude adentrar a loja de doces, ou melhor, pude ao menos tentar, pois a porta estava trancada. Bati na porta com cuidado e de leve para não chamar nenhuma atenção desnecessária e prontamente meu coração saiu da perdição para um alivio profundo. Puta merda! Era ela ali na minha frente, apesar do vidro que nos separava. A menininha fez sinal apontando para o fato de que estava trancado e não tinha como abrir, o que rapidamente me remeteu ao seguinte, “se ela não consegue sair, como conseguiu entrar?”. Eis o mistério. Já começava a ficar escuro e a minha visão, apesar de eu enxergar muito bem, estava deficiente pela pouca luminosidade da rua. Céu cinza com nuvens negras. Indícios de chuva. Tudo o que eu não queria, eu acho. Resolvi dar a volta para adentrar pelos fundos mesmo sem esperança e, para a minha sorte, eu vi de fato uma porta. Ao abri-la me deparo com um cheiro estupidamente horrível me invadindo e, na ânsia de vômito, um grupo de 6 zumbis bem decompostos já vindo em minha direção com aquela baba e grunhido característicos. Nem conseguia vê-los muito bem, mas era visão suficiente para perceber a localização e a falta de alguns membros. Eu já sonhava com o barulho. Não estava nem aí. Armei a machadinha e fui “dançar” com os meus convidados de merda. Golpes na cabeça em cinco deles. O último apareceu bem de surpresa por trás e meti um chute no tórax que deve ter partido o bicho ao meio. Abri a outra porta que dava finalmente para a loja de doces e adivinha? A minha menininha estava lá, com aquele sorrisão lindo e metálico pronto para me comer vivo de felicidade, mas no bom sentido e intenções dessa vez. Eu estava da mesma forma. Nos abraçamos e foi um momento feliz. Atrevo-me a dizer somente a palavra “feliz”, pois não importa o quanto eu dê ênfase a esse momento e sentimento que veio do encontro e abraço. Ninguém nunca irá sequer ter noção do que sentimos. A gente se gosta a ponto de não existir palavras para descrever. E sim, tudo isso existe mesmo nessa bosta de mundo. Com ou sem zumbi por perto precisamos e queremos um ao outro, na vida e na morte..na morte.. Olhando para baixo pude perceber algo espantoso. As lágrimas de felicidade se transformaram em lágrimas de agonia. Um sentimento contrário e extremamente incômodo. O mundo que tinha nascido acabara de morrer como um bebê anencéfalo. Ela estava muito machucada no braço. Uma ferida bem feia. Eu não quis nem ver direito. Não tenho problema com sangue e caso tivesse já estaria curado visto que os mortos que andam são piores de se ver e relacionar. Ela não precisava dizer nada, mas disse. – Desculpa.. e obrigada por vir me proteger, meu amor. Ela parecia conformada, ou satisfeita porque eu pelo menos estava ali. Minha vida que tinha renascido morreu novamente e eu congelei. Não quis ver mais nada, só abracei a menininha bem forte e lá fiquei. Ouvimos um barulho vindo de trás. O zumbi que tomou um belo chute levantou e vinha em nossa direção. É fácil pará-lo, mas não, dessa vez eu não quero. Nem olhei canto algum, só estava ali, chorando de cabeça baixa em seus braços. Eu nem sei qual foi a reação dela. Não imagino a carinha que ela fez diante do meu rendimento. Eu fui fraco, não posso viver sem ela. Se fosse o contrário ela faria o mesmo e eu, assim como ela, estava bem com isso. Os passos tontos e desastrosos ficavam cada vez mais sonoros. Ele chegava perto. Seu grunhido estava bem vivo, apesar de ser um morto. A refeição mais fácil da vida dele, se é que ele comeu porque eu não senti nada. Não sei o que houve e, sinceramente, não quero saber. O vazio me preencheu para sempre. O mundo tinha acabado há quase 2 meses e eu só me neguei todo esse tempo a me entregar ao fluxo natural das coisas. Precisei perder a menininha para ver que não podia evitar.. ok, ok, eu só não queria mais passar por nada disso novamente mesmo. Encheu o saco, pois se não há cura para ela, também não há para mim. Adeus. &nbsp; Autor: Felipe Drummond Idade: 25 De:  Rio de Janeiro- RJ Saiba como enviar o seu conto clicando aqui