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CONTO ZUMBI: "Protege Moi"

contozumbi

45 DIAS APÓS A INFECÇÃO Campo Grande, MG – Brasil; 18h30min.

Está tudo tão quieto que quase posso ouvir o barulho das formigas caminhando no solo. É simplesmente angustiante escutar seu próprio coração ribombando num ritmo acelerado, te enchendo de medo... Te enchendo de vida. Sinto que o cabo do facão começa a escorregar de minha mão direita, indicando que comecei a suar há algum tempo. Mas o pior de tudo é a sensação de que a morte iminente pode estar há poucos metros de mim, me espreitando como se eu fosse algum tipo de presa previamente almejada.

Realmente, não faço ideia do motivo que me fez sair do conforto do meu trailer pra vir buscar mantimentos há essa hora. Não que seja noite, mas está começando a escurecer, e sinceramente espero que nós não sejamos forçadas a dormir ao relento. Mesmo que esse bairro esteja abandonado há dois dias (nós mesmas fizemos a limpeza e a checagem geral), nunca consigo ficar completamente relaxada quando saio de dentro daquele trailer.

Puxo o ar com força, respirando profundamente pra tentar manter a calma. Me movo com a cautela de um felino, erguendo a cabeça pra dar um espiada pelo vidro trincado da vitrine. Sem que eu esteja preparada para demonstrar qualquer reação, percebo um par de olhos azuis me encarando de volta, vindo de dentro da loja de conveniências. Beatriz levanta a mão direita com o polegar pra cima, indicando que está tudo bem com ela enquanto recolhe silenciosamente algumas latas pra dentro da mochila que carrega. É claro. Ela sabe que estou preocupada e que quero sair logo dali. Ela sabe que eu estou com medo e que morreria caso algo acontecesse com ela. Ela sabe que se começar a enrolar procurando Ruffles, quem vai arrancar a carne dela com os dentes sou eu.

— São 25 reais, moça. – Ela comenta e dá um sorrisinho, mantendo a voz num tom sussurrado. Os olhos dela parecem refletir um brilho interno, uma essência que só essa garota consegue manter durante o fim do mundo.

— Cala boca e sai logo daí. – Eu digo, mas não consigo deixar de sorrir de volta. Esses são um dos poucos momentos em que sinto vontade de continuar, um dos poucos momentos em que me permito sentir esperança.

— Roaaaaaaaaaaaagh....

Um gemido estralado quebra completamente a tranquilidade do momento. Meu coração dá um salto e sinto uma angústia terrível crescendo no peito. Não estou preocupada com a minha segurança e bem estar. Estou morrendo por dentro porque eles estão lá.  A única coisa que temo mais que a morte é perder ela. Não consigo suportar a ideia de ficar sozinha em pleno apocalipse.

— Karol, me ajuda!

Antes que Beatriz pudesse pronunciar a ultima palavra, eu estou dentro da loja. Observo as criaturas avançando contra ela... O resquício do que fora uma mulher e um adolescente. Os hospedeiros gemem como se fossem animais selvagens, andam aos tropeços e exalam um odor terrível de carne em decomposição. A mulher tem o rosto deformado pelo fungo, falta um braço – de modo que o cotoco que parte de seu ombro encontra-se unido a um esporão enorme, que ainda não fora completamente desenvolvido. Imediatamente, puxo a máscara hospitalar e cubro o nariz, me impedindo de respirar o ar cheio de fungos que impregna o local.

O garoto morto é o mais decomposto do lugar: O fungo cobre todo seu tórax, e ele tem a aparência de estar sendo completamente consumido pelo parasita. Há violentas manchas negras de bolores com a aparência de queimaduras em seu braço, pus branco escorre pela sua boca e por outros orifícios... Há um buraco aberto em seu abdômen, escorrendo sangue negro e esporões brancos aveludados. O zumbi se aproxima rosnando e babando aquele líquido gelatinoso de aparência horrível, mas nem percebe que o bastão de ferro dela já está em posição de ataque. Bea recua um passo na direção da prateleira e desfere uma pancada tão potente na cabeça do garoto que posso ouvir o osso do pescoço dele se partindo em dois. Uma parte do fungo descola da face deformada do maldito, levando junto pele decomposta e uma parte da bochecha, de modo que a maxila fica á mostra. O zumbi parece não se importar, e continua a se aproximar de Beatriz até que a menina cai no chão. Enquanto ela lida com o garoto, parto pra cima da mulher como se fosse uma leoa. Racho a cabeça dela em duas partes com um único golpe do facão, mas o movimento faz com que minha arma fique enterrada pra sempre em sua cabeça. Eu poderia tentar tirar o facão enferrujado dali, mas a essa hora Bea já estaria morta. A mulher para um segundo, fazendo uma pausa dramática, em seguida desfalece completamente desengonçada, seus joelhos dobrando-se com fraqueza e atingindo o solo num baque surdo.

A garota tenta se proteger da maneira que pode, usando o bastão de ferro na horizontal para manter o garoto longe dela, já que ele caira quase em cima de seu rosto. O sangue negro do abdômen dele se esparrama por toda camiseta de minha amiga, e há manchas roxas de algum tipo de líquido desconhecido em seu rosto. Nem vejo quando meus músculos se contraem, e desfiro um chute potente nas costelas dele. O máximo que consigo fazer é afastá-lo um pouco dela.

Foi o bastante.

Apesar de ser magrinha, Beatriz é atleta. Ela reage mais rápido do que imagino ser possível, levanta-se com destreza e se muni de seu bastão de ferro. Então espanca o garoto novamente – com força! – descolando mais ainda a pele de seu rosto. Agora ele só tem metade da face, assemelhando-se ao exterminador do futuro. Ergo a perna rapidamente e piso contra a cabeça dele. Imediatamente, sinto meu pé afundando através de carne, ossos e massa encefálica apodrecida, manchando meu sapato de couro com essência fúngica, esporões embolorados e restos mortais de um moribundo. O cano de minhas botas transpassa o zumbi como se ele fosse feito de manteiga, e em pouco tempo ele já não se mexe mais. Quase posso ver os esporos do parasita se espalhando no ar. Sei que se eu respirá-lo diretamente, em pouco tempo me tornarei uma deles.

Bea está com os olhos arregalados, com respingos de sangue negro na cara, usando a máscara hospitalar e sustentando a mochila preta nas costas. O bastão se encontra em sua mão direita, e consigo perceber que ela o segura com tanta força que os nós de seus dedos estão brancos.

— Relaxe, estamos vivas. – Eu digo numa tentativa falha de tranquilizá-la. Ela observa a bagunça que fizemos na loja de conveniências e balança a cabeça negativamente, reprovando nossa falta de experiência.

Já fora da loja, olho pros lados e dou cobertura pra Bea, que se move como um gato entre os carros abandonados. Sigo os mesmos passos dela, sempre em seu encalço. Quando olho pra cima, vejo a forma de uma nuvem negra se dispersando no ar. Ela parece um rosto humano, transmutado numa expressão divertida. Os resquícios de um sorriso sarcástico em sua face.

Se você estiver ai, proteja-me. Eu peço em silêncio, limpando meu facão na roupa surrada de um cadáver jogado no chão.

É, meu pedido tem dado certo. Pelo menos até agora.

&nbsp; Autor: Karoline Melo Idade: 18 De: Cuiabá – MT Saiba como enviar o seu conto clicando aqui