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Conto Zumbi: "A Última Missão"

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&nbsp; Ano de 1191. Cavalgamos por quase dois dias ininterruptos pelas estradas ao sul da terra sagrada. Eram tempos difíceis aqueles. Os muçulmanos ainda controlavam Jerusalém e a guerra da Terceira Cruzada parecia não ter fim. Nós, cruzados, havíamos recebido a sagrada missão de recuperar Jerusalém. Até o momento estávamos indo bem em nossa campanha. Poucos dias antes conquistamos a cidade de Acre, que fica a apenas trinta milhas da cidade santa. Pela primeira vez em muitos anos consigo ver o fim dessa loucura. Tudo o que eu quero é voltar para os braços da minha amada e de meu filho. Por nossos serviços, recebemos permissão Papal para retornar às nossas casas a fim de sermos chamados apenas em caso de extrema urgência. Porém, antes, tínhamos de realizar uma última missão. - Santo Padre, realizaremos a missão como o senhor ordena – eu garanti e beijei o anel de ouro de Sua Santidade. - Por favor, tragam-no são e salvo. Há com ele informações preciosas sobre o paradeiro de relíquias sagradas que foram tomadas de nós – pediu o Papa Gregório VIII. – Vão, cavaleiros, e que Deus guie seus caminhos – desenhou o sinal da cruz no ar e nos dispensou. Então aqui estamos, procurando Gregor, primo de Sua Santidade. Era para ser apenas uma missão de reconhecimento e escolta, então viajamos somente com o que era estritamente necessário para a jornada. Quanto menos peso, mais rápido chegaríamos a nosso destino. Essa era a visão de Sua Santidade, da qual não compartilhei. Mas ordens são ordens. A contragosto, pedi que meus homens não vestissem a armadura, apenas levassem espada, algumas rações e nossa vestimenta que nos identificava como templários. O homem que íamos buscar vinha acompanhado de uma caravana escoltada por seis cavaleiros e oito serviçais. Depois de muito seguir os rastros na densa e traiçoeira trilha por mais um dia, finalmente encontramos a caravana. Ou o que havia sobrado dela. Comigo estavam mais quatro cavaleiros da ordem dos templários. Com um sinal dei a ordem para que parassem. Descemos e prendemos nossas montarias nos troncos das árvores e fomos averiguar o que havia ocorrido. - Eles acamparam aqui – anunciou Delos, nosso rastreador. - Foram atacados? – perguntei. A carroça usada para transportar o homem estava tombada de lado. Nem sinal dos cavalos que a levavam. Malas e pertences foram deixados no local. Revirei rapidamente uma mochila e achei uma pequena sacola que continha várias moedas de ouro. - Foram – respondeu. – Há vários sinais de que um combate aconteceu aqui. - Então por que não levaram isso? – perguntei sacudindo o saquinho. As moedas tilintaram lá dentro. - Pressa talvez. Os outros cavaleiros fizeram um perímetro ao redor do local. Todos a postos a qualquer sinal de perigo. Delos circulou o acampamento e examinou tudo meticulosamente. Havia muitas pegadas no chão, de modo que quem quer que tenha feito aquilo deixara rastros evidentes para que pudéssemos persegui-lo. - Talvez sejam ladrões de estrada – ele disse ainda circulando o local. – Difícil precisar um número, mas deviam ser mais de dez. Vieram do norte. - E dos integrantes da caravana? – já sabíamos que houve um combate aqui, então deveria haver feridos ou mortos e não estávamos vendo nenhum dos dois. - Como não há nenhum corpo, o mais provável é que tenham sido levados – ele dá a volta na carroça e fica por lá alguns instantes. Aquele era o único local que não era visível para nós. – Tem um corpo aqui! – ele disse e eu fui imediatamente averiguar. - Deus do céu! – fiz o sinal da cruz quando vi o cadáver. Creio que era um homem. Digo isso porque o cadáver está praticamente irreconhecível. Seja lá o que fez isso com o pobre, não deixou muita coisa para contar história. O tórax foi aberto de ponta a ponta e boa parte de seus órgãos internos havia sido retirada. O rosto estava deformado, parecia ter sido desfigurado a dentadas. Uma matilha poderia explicar a cena grotesca que eu presenciava. O rastro de sangue seco seguia para o leste. - Muito bem, homens, vamos atrás dos responsáveis por isso – dei a ordem. Estávamos para montar em nossos cavalos quando ouvimos barulhos de passos, seguidos de gemidos que arrepiaram minha alma. O som vinha de todas as direções. Espadas foram desembainhadas e posicionadas para o combate. Ficamos em círculo para cobrir todas as direções. Foi então que o sacerdote Gregor surgiu do meio das árvores. Porém, havia algo errado. Suas vestes estavam empapadas de sangue seco, havia uma marca de mordida enorme em seu pescoço. Eu me lembrava perfeitamente de seus olhos verdes, mas o que eu via agora eram duas órbitas leitosas desprovidas de qualquer coloração olhando fixamente para mim. Ele balbuciava algo incoerente ou estava apenas grunhindo de dor devido ao ferimento, poderia até estar se engasgando no próprio sangue. Depois de alguns passos cambaleantes até nós, ele tropeçou em uma mala cheia de objetos cerimoniais e caiu desengonçado no chão. Doravan, o médico de nosso grupo, foi rapidamente até ele. Os outros mantinham espadas erguidas, pois os gemidos não haviam cessado. Vi quando meu companheiro tomou o sacerdote nos braços e rapidamente analisou sua ferida. Ele perguntou se o sacerdote podia entendê-lo, apanhou um kit de primeiros socorros de sua bolsa e logo em seguida soltou um grito animalesco que assustou a todos nós. O sacerdote havia mordido a jugular de Doravan com tanta violência que arrancou um naco enorme fora. Samuel e Luan foram ao seu auxílio. Samuel arrastou Doravan para longe do sacerdote, enquanto Luan imobilizava no chão o sacerdote que a todo momento esperneava, grunhia e tentava bater para escapar. - Santo Deus! Doravan está sangrando um riacho! – Samuel apanhou um pedaço de pano de uma mala próxima e pressionou o ferimento. Em segundos ela estava completamente vermelha. - O que há com esse desgraçado? – indagou Luan ainda segurando o corpo do sacerdote contra o chão. - Não estamos sozinhos... – a voz de Delos vinha carregada de terror. Só então olhei ao redor. Vinte, talvez mais pessoas caminhavam a passos descompassados em nossa direção. Eles vinham de todos os lados. Homens, mulheres, velhos e crianças. Todos com braços levantados e bocas semiabertas. Eram eles que grunhiam alguns instantes atrás. Deus! O que em nome do Pai aconteceu a essas pessoas? Todas tinham feridas em alguma parte do corpo em maior ou menor grau. Uma garotinha estava com o braço direito amputado. Um velho não tinha uma das pernas, arrastava-se pesadamente contra nós. Com assombro vi que alguns deles eram templários. Um deles tinha uma enorme lança cravada no peito e mesmo assim caminhava. - Em nome de nosso Santo Papa, parem onde estão! – eu ordenei com a espada em punho. Eles não pararam. - Doravan se foi, senhor – anunciou Samuel. – Sacerdote maldito! - Pare, Samuel! – meu comando não surtiu efeito algum contra a cólera de meu amigo. Samuel brandiu sua espada acima da altura de sua cabeça e avançou contra o sacerdote Gregor. Luan saiu do caminho no momento em que a arma desceu contra as costas do sacerdote. A lâmina trespassou o corpo dele e cravou-se no chão, mas para espanto de todos, ele não parou de se mexer, não parou de tentar se levantar. Luan desembainhou sua espada e com um golpe em riste perfurou o peito de um homem. Aquele golpe teria levado ao chão o mais poderoso dos guerreiros. No entanto, o homem não apenas ignorou o ferimento, como enterrando a lâmina ainda mais em seu corpo. Estupefato, Luan deixou a lâmina correr até ficar cara a cara com o homem que, sem perder um segundo sequer, agarrou firme sua cabeça e desferiu uma mordida na altura do nariz. Ele rugiu de dor e tentou de todas as formas se livrar da pegada, ambos indo para o chão em seguida. O homem continuava a mordê-lo como um lobo faminto, arrancando pedaços de sua face. Samuel enfrentava cinco daqueles monstros inumanos. Cada golpe que desferia arrancava um membro, mas apenas retardava o avanço das criaturas. Que loucura! Esses golpes teriam incapacitado qualquer pessoa normal. Delos foi cercado por uma turba de mais de dez e caiu no chão, gritando de dor. Seu estômago foi aberto com mãos nuas, às tripas indo ao encontro de bocas famintas. A voracidade daquelas coisas era impressionante. Eles não se intimidavam com nada! Em nome de Deus, aquelas coisas do inferno precisavam ser destruídas! Com minha espada em punho, fui fazer o que eu sabia fazer melhor: matar. O primeiro teve a cabeça separada do corpo ao se aproximar de minha linha de ataque. O segundo recebeu minha lâmina no estômago. O ataque horizontal abriu um talo enorme, jogando intestino, fígado, sangue e tudo o mais que tinha dentro daquele homem para fora, mas ele não parou de andar até mim, nem mesmo diminuiu o ritmo. O segundo golpe foi de cima para baixo no topo de sua cabeça. Ele não tornou a se mexer depois disso. - Vocês são templários! O que estão fazendo, seus idiotas!? – dizia Samuel afastando com chutes seus antigos companheiros. Ele não queria matá-los e eu também não. Eles eram cruzados! Eles eram servos de Deus. Estariam todos eles possuídos pelas forças de Lúcifer? A batalha estava difícil. Não só éramos dois contra mais de vinte, como eles simplesmente não caíam com nossos ataques... Exceto os dois que eu acabara de matar. Ao pensar nisso, esquivei-me da investida de mais um e com um movimento em arco separei o corpo da cabeça. Estava certo. Não entendia por que, mas apenas separando a cabeça dos corpos éramos capazes de pará-los. - A cabeça! Arranque a cabeça desses malditos, Samuel! – gritei para ele, mas era tarde. Ele foi cercado, dominado e executado. Estava sozinho. Depois que descobri que apenas um golpe certeiro que separasse a cabeça do corpo era capaz de enviá-los para os círculos mais obscuros do inferno, recuei com o propósito atraí-los para o meio das árvores. Observei que eles pareciam não ter consciência de quem foram ou do que estavam fazendo, suas ações motoras eram tão precárias que muitos tropeçavam em locais que bastavam levantar o pé para desviar e não conseguiam perceber que eu os levava para armadilhas, de forma que foi relativamente fácil levá-los para as partes mais densas da floresta. Matei um a um, até que não restou mais nenhum deles de pé. Um deles ainda conseguiu me morder na mão, mas nada que algumas ervas medicinais não pudessem resolver. Não sei que tipo de bruxaria usaram, mas com horror vi que algumas cabeças ainda se movimentavam! Quando seus olhos sem coloração me fitavam, eles abriam e fechavam a boca... Alguém abriu as portas do inferno, que Deus permita que esta seja a última vez que criaturas assim pisem em nosso solo sagrado. Recuperei os documentos que o sacerdote Gregor trazia e agora cavalgo de volta a Roma. Nunca irei entender o que realmente aconteceu aqui, o porquê daquelas pessoas terem feito o que fizeram, atacando e matando cavaleiros templários, homens de Deus. Enquanto cavalgo de volta para minha terra, de volta para o meu amor, sinto o meu corpo arder em febre. Devo ter contraído algum resfriado nessa minha última missão. Logo chegarei a Roma. Logo chegarei aos braços de minha amada. &nbsp; &nbsp; Autor: Luciano da Silva Vellasco Idade: 24 De:  Brasília-DF &nbsp; Saiba como enviar o seu conto clicando aqui &nbsp; &nbsp;