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CONTO ZUMBI: "Jacinto"

PLANETA MORTO - JACINTO - universo zumbi

Jacinto tem um armazém na zona portuária de Salvador. Ele vende farinha, fubá, café e outros gêneros alimentícios que ele compra na cidade alta e vende fiado para os pescadores, a preços que eles conseguem ir pagando devagar, mas conseguem. Ele é compreensivo, sabe que o dinheiro é pouco.

Entretanto, se existe algo que realmente sustenta sua família, permitindo que suas filhas tenham uma educação melhor que a dele, é a solidão dos homens que vivem do mar. Marinheiros vêm de longe, deixam suas casas e suas famílias em sua terra natal e vagam por um mundo brutal e estranho, os que não tem família são piores ainda, cães do mar sarnentos e amargos, estivadores são brutos e insensíveis e pescadores são montanhas russas, indo do júbilo de um bom dia de pesca à depressão de mais um amigo ou parente perdido nas ondas de uma tempestade.

Jacinto vende a bebida onde todos afogam seus problemas, incluindo ele mesmo. Ele teria muito mais dinheiro se não estivesse bêbado a maioria do tempo, perdendo as contas de quanto seus fregueses lhe devem, sendo estúpido e quase violento quando a filha mais velha, Janaína, tenta ajudá-lo a organizar o caderno onde ele tenta manter as dívidas dos clientes mais costumais em ordem. Mesmo assim ele consegue ser um homem decente a maioria do tempo, especialmente com as duas filhas.

O velho Jacinto odeia violência, desde sempre, na verdade ele tem uma alma covarde, e somente na defesa de seu armazém e de suas filhas ele é capaz de puxar o calibre 38, presente de um primo policial. Algumas vezes os marinheiros mais bêbados precisam de uma “ajuda” para lembrar e que não devem brigar dentro do armazém, então ele apenas grita e sacode a arma acima da cabeça, sem nenhuma habilidade ou vontade de usá-la.

Sempre existem histórias e notícias no porto, e os bares são os lugares onde rumores se tornam fatos e fatos são distorcidos em lendas por bocas alcoolizadas e carentes de atenção. Jacinto as escuta com toda a atenção fingida que ele aprendeu a desenvolver através dos anos, faz parte do trabalho. Eles não pagam somente pela bebida, pagam também pelo direito de chorar suas mágoas com o garçom. Um marinheiro de um cargueiro alemão conta, entre soluços e tropeços no português, sobre como sua esposa o largou por um “begegnen“.

-Fala em português, não mistura a língua, polaco do caralho! A voz embargada de Jacinto zomba da dificuldade do marinheiro, que começa a tossir e se contorcer de uma dor súbita.

Janaína está ajudando o pai naquele começo de noite. Ela trabalha em um escritório de contabilidade como recepcionista e namora um dos contadores, que, apesar de ser mais de dez anos mais velho que ela, é um homem fascinante, que a completa totalmente.

Apesar do desgosto do pai em relação ao namoro, ela o mantém, em parte pelo prazer de desagradar o pai.

-Pai ele tá passando mal, para de dar risada!

Jacinto demora menos de vinte segundos para se recompor, mas foi tempo demais.

Outro marinheiro, colega do homem que contava a história, larga sua cerveja e vai ajudar o amigo que se contorce em cima do balcão e quando o dono do bar se aproxima deles para ordenar que o desgraçado fosse vomitar lá fora, de preferência no mar, ele vê a cena mais escabrosa de sua vida, que o perseguiria em seus sonhos pelos anos que seguiriam.

O marinheiro doente estava com a cabeça apoiada no ombro do outro, da mesma maneira que um bêbado faria, mas a farsa acabou quando o jato rubro de sangue arterial esguichou feito espuma do mar, manchando até o teto do bar e gerando uma série de gritos desesperados, do homem mordido, das pessoas ao redor, da pobre Janaína, que não consegue tirar seus inocentes olhos da carcaça do homem sendo devorada por seu próprio amigo, seu irmão do mar.

Ele precisa de alguns segundos para entender o que deve fazer, pega o calibre 38 de seu esconderijo debaixo do balcão, coloca-lo no topo da cabeça daquele mostro disfarçado de homem, o demônio estava distraído demais com seu banquete para se incomodar, puxa o cão da arma para trás e aperta o gatilho.

É a primeira bala que aquele 38 dispara, em mais de quinze anos que ele está de guarda naquele armazém.

Jacinto está tremendo, não foi a mão dele que disparou aquela arma, foi o medo. O medo que ele sempre teve de que não fosse homem para sua esposa, que não seria capaz de criar suas filhas depois da morte dela, que ele não seria capaz de lidar com álcool, com o medo daquela aberração que apareceu em seu bar. Ele sente o cheiro e o calor e sabe que se urinou nas calças. Mesmo assim a primeira coisa que ele pensa é em cobrir os olhos de Janaína para que ela não presencie mais do inferno que se instaurou naquele humilde boteco.

Conto paralelo a HQ Planeta Morto.

Autor: Jordan Florio

Idade: 27

De: São Paulo - SP

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